15.10.06

ser-se mais uma vez

Apetecia-me estar envolta desta melodia para sempre. Congelar aqueles primeiros momentos e ver-me, depois, livre para sempre quando me soltasse.
Pior mesmo é que me julgo congelada para sempre, um processo, neste caso, pouco reversível. Porque nunca me vou ver livre, nunca me vou derreter naquilo que sou, não pelo menos no que remete para a alma ou para o estado de espírito interior. Tornar-me transparente para fora, transparecer o meu carma e acenar à mais pura das filosofias parece-me a acção com a cruz mais pesada. Talvez porque não vou ser capaz nunca mais. Não me vou conseguir abstrarir da realidade que tenho como sombra, do que é realmente passado.(...)

É dificil explicar, talvez a abundância de redondâncias subsjectivas justifique isso mesmo.
Só sei ser directa e clara quando afirmo que nada vai ser mais importante do que os momentos envidraçados de há uns tempos. Com o tempo em longa-metragem, declaro que sou eu em função de tudo aquilo que foste para mim.




let me go home
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14.10.06

promessas

Tentei pegar em ti; trazer-te. Mas, estavas tão presente no passado que, ao tentar descolar-te, rasgaste. Dividiste-te: uma parte para mim outra para o que tínhamos sido. A minha parte é o teu eu de agora, a parte do que fomos julgo que ninguém sabe senão eu e tu. Ninguém sabe da cor desse pedaço, do cheiro, da textura ao tocar.lhe...
(...)
Prometi-te um mundo. Quis-te resgatar para ele de uma forma tão repentina que tu quebraste. Assustaste-te talvez, não? Devia ter-te dado tempo, tempo para que as velhas raízes secassem definitivamente e que outras ganhasses, sempre com tempo. Precisavas de espaço para te apegares aqui e a mim, espaço esse que eu nao dei. (...)
Ainda hoje olho por aquela janela que me leva até às histórias fantasticas que me contavas. Histórias das quais tu e eu faziamos parte. Eu ainda era uma princesa aí, tinha cabelo comprido e tu eras aquele meu príncipe de olhos azuis. Ah! E nós amávamo-nos. Amávamo-nos para sempre, naquele tempo, diziamos nós. Lembro-me de um episódio.
(...)
A falar estávamos e eu perguntei-te se estava tudo bem. Tu, nessa tua forma de ser, disseste que sim. Um sim termido e assustado, fazendo-me lembrar o não. Porque não disseste logo não? (...) Eu sabia que não, tive a certeza quando me contaste os teus medos, as tuas relações com o terceiro mundo. Eu fiquei assustada. (...)
Penso que foi mesmo isso que faltou, faltou vontade e confiança neste pedacinho em que te dividiste, neste pedacinho que me pertence, a mim e não àquilo que fomos juntos.

Faltou-te tempo e espaço para dizeres não. Eu sei que sim.





It's because I felt you.


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12.10.06

viver de novo

Procuras uma coisa que nem sequer existe : a verdade. Eu sei, ela nunca existiu. Nunca houve sinceridade nas palavras, nos actos, nas tuas remotas paixões.
O tempo simplesmente passa por ti, e com ele traz emoções novas com as quais te surpreendes e nas quais te prendes. Desacreditas tudo o que é temporalmente certo para teres fé em momentos futuros, segundos que ainda não nasceram. E tudo isto é um ciclo. Eu que o comprove. Exactamente por ter essa capacidade de te denunciar é que me deixaste de lado, naqueles momentos passados que tu já não te acreditas (nem tão pouco te lembras). Fui capaz de assistir a vários ciclos, a várias fases; posso mesmo dizer que já tenho o projecto da seguinte quase terminado. (...)
Tornas-te leviano. Cansam-te as palavras que foram ditas naquele sítio. Cansa-te recordar as fotografias e preocupa-te tudo aquilo que foste. (...)
Pedia-te que, daqui para a frente, não fizesses com que estas palavras ganhassem ainda mais sentido, pedia-te que parásses. Pedia-te para vivermos só mais uma vez.


hopping everything's not lost.
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11.10.06

silêncio


-Silêncio. - dizias tu em voz baixa.
E eu alí sentada, observando o teu nada que fazias. Eu conhecia-te. Via no teu olhar um ligeiro tremor que me fazia adivinhar a tua impaciência. Conhecia-te tão bem ( e tu a mim ) que talvez por isso, muitas das vezes, não tinha coragem de perguntar o que tinhas. Guardavaste sózinho, triste, com os olhos voltados no chão sujo por onde tinham passado mil almas diferentes, mil vidas. Mas nenhuma delas te parecia tão complicada como a tua. Foi o descobrir do Sol que te trouxe até mais a mim mas eu, insegura e inocente, não fui capaz de te dar aquela luz de que precisavas, entao voltaste a escurecer a tua vida num adeus. E eu ali fiquei, a pensar. (...)
Pensei, sim. Pensei na fantástica capacidade que as pessoas têm de trocar, inverter, mudar (sabe-se lá...) aquilo que sentem. É incrivel a capacidade que têm de desiludir o outro, de o arrastar até um canto.
Talvez esta imagem seja um pouco cruel de mais, talvez as pessoas sejam crueis de mais. (...)
E foi aqui que despertei, que olhei pra ti que já ias lá bem ao fundo, a tornaste-te pequeno, no ponto. Senti-me a pessoa mais cruel do mundo por não te ter dado um abraço naquela altura, por não ter mandado uma piada ou feito um gesto meigo. Senti-me mais uma. E fui.



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6.10.06

adimensional

Vou escrever uma última vez, aqui, por ti.

É bastante fácil arranjar uma história, idealizá-la e descrevê-la a seguir. Mesmo que não fossem aqueles os sentimentos mais adquados, Tu simplesmente os incutes no momento, satirizando-os por existir... Difícil foi, e será certamente, fazeres passar para fora aquilo que sentes Tu, aquilo que vives Tu, no fundo, a tua própria história. E foi isso que me foi acontecendo: tornou-se tão complicado para mim separar e identificar todos aqueles sentimentos, todas aquelas emoções que sabes, perdi completamente a noção de o fazer em Ti e por Ti. Já não sei mais. Ainda que venha por aí a aurora mais radiante de todas, que me faça acreditar em tudo outra vez, que me faça bater na parede com a cabeça por tao incorente que fui, o que é certo é que a oportunidade passou. Assim como só há um instante certo para captar uma fotografia de um momento, com uma expressão, também só houve uma altura para nós sermos isso mesmo: nós. E, mesmo embora, de fora, parecesse o contrário, nós sempre soubemos que foi assim. E tinha sido naqueles dias maravilhosos o ponto alto, em nome de tudo o que se tinha passado anteriormente.
Rir, ver, chorar, sentir, amar, querer, fugir, esconder. Foram tantas as ocasiões, tanto boas como más, foram tantos segredos, tantos toques descritos, tantos carinhosos, sonhos e ambições que nos acabaram por trair nesse sentido mais fundo, mas que nos enriqueceram sempre mais e mais até agora; até o que somos agora. Saber o Outro em si mesmo é das capacidades mais gratificantes.