23.12.06

(in)natalício

É dia 23 de Dezembro. A véspera de natal é amanha, mas não parece.
(...)
Chego a casa, cansada de um dia aflitivo para alguém que pensa como eu. É como se toda a materialização de sentimentos se concentrasse neste dia, sendo tão espessa que eu me prendo completamente. É julgar e dar preço aos afectos, é satirizá-los da pior forma. Estas atitudes não fazem sentido, mas, pelos vistos, cada vez o mundo e o nosso viver fazem menos sentido sem elas. (...)
Ao chegar, vejo que não está ninguém a casa (aqui se verifica, portanto, o espírito natalício, com o conceito de união e família bem presentes... também a coisa mais presente nas mentes de todos nós, nesta época, são os presentes; e mais não digo). Acendo a luz e escureço-me ao deixar acompanhar de uma música bastante agradável e diferente que já trazia pelo caminho. As luzes da árvore são inconfundíveis. O seu piscar já cansado fez-me lembrar que "ah sim, amanhã é natal!". Entristeceu-me o olhar nesse instante. Mas segui em direcção ao quarto. A música continua a dar, dançando os meus passos que faziam eco pela casa, nostalgicos daquele ambiente. Meia arrastada, sentei-me, olhei para o chão e tirei os sapatos com delicadeza. Num canto, eles lá ficaram, juntos de nunca se separarem; e eu olhei em redor, sozinha de nunca estar acompanhada realmente. Entretanto, um dos phones caiu. Caiu-me a alma também, quando fui despertada pelo silêncio que se sentia afinal. Olhei-me ao espelho e vi-me longe, muito longe deste dia. (...)
Sentir-me diferente, ser apoderada à força pelos costumes que me foram dados de um hábito, no qual eu não tenho fé, é como uma invasão do meu "estar", da minha forma de ser. Não faz parte de mim, mas, ainda assim, todos à minha volta fazem questão de me apontar o dedo à maneira tocável de ver o, tão chamado, natal, que eles têm e eu não. Não sou só eu, com certeza, mas o que é certo é que, para já, não conheço mais que duas pessoas que percebam aquilo que eu sinto. (...)
Porque é que, nesta altura, tudo mora dentro de um saco gigante e preto, onde as pessoas guardam aquilo que pensam e são porque "é natal!"? Talvez eu é que esteja a ser estúpida e "infantil", mas tudo tem o seu tempo, eu só respeito isso e sinto-me bem assim.
Este, o meu, não é, de certeza, o espiríto de natal ideal. Há demasiadas luzes no ar, não me iluminam só a rua por onde passo...



juana

21.12.06

o toque

Passa-te o homem da esplanada de sempre, com o jornal noticiado com acontecimentos quase eternos, repetidos no tempo e na forma de ser daquele sujeito. Passa por ti, e, talvez pela intersecção dos vossos destinos, cruzam-se frontalmente naquele ponto. Trocam-se olhares, vergonhas e respirações, anunciando aquele "desculpe", muitas das vezes, forçado a acontecer. E como este, numerosos outros encontros espontaneos se dão e tu tens.
É fantástico pensar que tocas em alguém, não é? Não é fantástico pensar que duas almas, em corpos completamente diferentes e aparentemente distantes, se toquem e troquem momentos físicos? É como quando uma gota de chuva toca num estrado de madeira afabado pelo calor e sujo pelo pó. São mundos diferentes, universos diferentes que se completam integralmente. E é muito à base dessa relação tão ambigua que os nossos seres se divagam pela terra, pela vida. O que seríamos nós sem o toque? Sem a troca daquilo que és, sem mostrares à alma do outro a tua? É estranho, é um conceito que se abstrai muito do nosso mundo real, mas que efectivamente existe. Porque é verdade, é verdade que sentes; é verdade que sentes necessidade de pedir aquele "desculpa", e que o pedes porque sabes que, num acontecimento normal, aquela situação não aconteceria. E é essa a questão. O toque, as impressões e o teu eu e o eu dele.




(...)





juanabranco

18.12.06

ser's

Disfarçam-se olhares entre aquilo que não se quer ser. Inconscientemente és tu sem o quereres ser, conscientemente és uma coisa que queres, mas que não consegues ser. E não adianta negarmo-nos a esta filosofia de vida, é que todos a vivemos. Não adianta querer ser correcto quando não se é. Afinal, só se seria ainda menos o que se é, e cada vez mais o que se quer ser.
É inútil sorrires para ficares bonita, quando só se apetece chorar. A filosofia das aparências cria, só pelo seu nome, uma terrivel forma de viver, um atalho para o fim. E o que fazemos nós depois disto? Nada. Eu, pelo menos, nem me mexo. É o ressuar desses teus actos inconscientes que ainda me faz lembrar aquela pessoa que tu querias ser, a que eu gostava.

13.12.06

volta-se

Acredita no futuro. Acredita que eu estou aqui, é que eu estou a fazer de conta que estou mesmo.
Afinal, acreditas que a roupa que escolheste para hoje te fica bem, acreditas que aquilo que dizes é que está correcto, acreditas que a cor do céu é sempre azul, acreditas em fantásias (aliás, vives nelas). (...)

Levianamente, dizes que isto são opções que tu tomas, que variam segundo os teus gostos. Eu não. Eu digo que são crenças, "fés".




quando se tem muito sono, torna-se complicado. volta-se.